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EM BREVE NOS CINEMAS

Festival do Rio 2014: Whiplash - Em Busca da Perfeição


Por Filippo Pitanga
28/9/2014


Que prazer é quando aqueles que amam, mas amam inabalavelmente a sétima arte, encontram uma obra que surpreende: "Whiplash: Em Busca da Perfeição" ("Whiplash", no original, 2013, de Damien Chazelle). Talvez um roteiro que, tratado de forma diversa, poderia recair numa história já contada muitas vezes. Porém, se bem executado, pode reunir show de interpretações, montagem e edição dinâmicas condizentes com a proposta, deliciosa trilha sonora de imersão, e um constante clima de tensão sem deixar a peteca cair em nenhum momento que mais parece uma sinfonia numa acústica perfeita. Tudo está ali no lugar certo (e podem crer nas palavras: provável indicado ao Oscar, principalmente na categoria ator coadjuvante para J. K. Simmons). Na seara de indies americanos, venceu o prêmio Sundance 2014, e consegue navegar pelo limiar entre grande público e alternativo ao mesmo tempo.


Tudo através da eterna história universal do embate de gerações, do pupilo versus o mestre, porém regado a uma altíssima obsessão pela perfeição inalcançável, mas talvez apenas saciada no desafio mútuo com que pessoas inconformadas ante a realidade ao redor tendem a se propelir para frente. O mestre, na pele do irretocável J. K. Simmons, em geral coadjuvante que rouba a cena (como em "Matadores de Velhinhas", "Homem-Aranha" e "A Música Nunca Parou"), repete o papel que já havia cunhado no curta homônimo que gerou este longa. Insaciável, impenetrável e ditatorial, ele crê que o ensino deve ir além do básico, abusando moralmente e fisicamente de seus alunos ao limite extremo para extrair genialidade. Mas será que isto não tem limite? Quem é levado às raias da loucura, em outra densa performance (também digna de indicações), é o rapaz na pele de Miles Teller, que, para se tornar o melhor baterista de sua geração, dá sangue suor e lágrimas, literalmente, para a melhor escola de música do país, e acha que isto justifica todos os sacrifícios como um panzer a atropelar o que vê pela frente.... Até seu bem intencionado pai (o sumido Paul Reiser de "Mad About You").


Eis que advém a cereja do bolo. O filme cresce pelo modo de filmar tão obsessivo quanto suas personagens, onde os instrumentos, paredes e demais objetos de cena também suam e sangram, como se respirassem de modo tão sufocado quanto o espectador a esta altura. Closes claustrofóbicos nas sensações conseguem transpor suspense para os instrumentos de jazz e notas musicais em pleno ar, assim como David Fincher já o fez com as palavras genial "A Rede Social". Pois aqui o diretor Damien Chazelle, assim como o mestre dos thrillers Fincher, subverte as regras e expectativas de roteiro, dispensando o típico final feliz americano, pois o que vale neste drama à la thriller é a perfeição, como diz o título, e não quem está certo ou errado ou meras lições de moral. A música se torna tanto o elemento libertador quanto o escravizador. O remédio e o algoz na cabeça humana. Uma obra de arte a ser ouvida, vista e sentida, como a música título "Whiplash".

 

Festival do Rio 2014 - Mostra Panorama do Cinema Mundial
Whiplash - Em Busca da Perfeição (Whiplash)
EUA, 2013. 105 min.
De Damien Chazelle
Com Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser