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EM BREVE NOS CINEMAS

Festival do Rio 2014: O Preço da Glória


Por Filippo Pitanga
28/9/2014


O Preço da Glória (La Rançon de la Gloire, 2014, de Xavier Beauvois), traz uma interessante premissa original: baseado em fatos reais, narra a trama, na década de 1970, de dois sujeitos comuns e miseráveis que têm o brilhante plano de roubar o caixão do grande Charlie Chaplin para pedir resgate à família do recém falecido. Com ótimo elenco internacional, contando com o ótimo francês Benoit Poelvoorde; a filha de Marcello, Chiara Mastroianni; o americano poliglota Peter Coyote, e a bela atriz/diretora/roteirista libanesa Nadine Labaki, o filme tinha potencial para ser muito mais, não fosse as armadilhas da grandiosidade da ideia de se tentar homenagear o próprio mito Chaplin não só com a história, mas também no formato com o qual esta história seria contada, gerando apenas uma leve comédia despretensiosa.


A princípio um drama agridoce de época para contar como os protagonistas se colocaram na situação de penúria, como o ex-presidiário na pele de Benoit e o taciturno, mas leal melhor amigo, interpretado por Roschdy Zem, cuja esposa (Nadine, aqui apagada) se encontra internada no hospital com cobranças exorbitantes, eles acabam por se envolver no roubo do corpo de Chaplin e serem perseguidos pela polícia e pelo assessor pessoal, ex-militar irascível (Peter Coyote), deslizando a trama para uma fanfarronice pastelão. Ainda mais quando entra o arco do circo, com a personagem de Chiara, pois aí a personagem de Benoit, não obstante o inegável carisma, sequer contém mais os gracejos cômicos, virando nitidamente o palhaço do picadeiro (homenageando Carlitos, o simpático personagem vagabundo de Chaplin). Isto tudo tentando desnecessariamente manter o tom agridoce inicial, vide a compaixão suscitada com a miserabilidade da justificativa de tal coisa atroz. Ou se assumisse como comédia, ou mantivesse a seriedade do início. Pois quem é a única a permanecer incólume às maluquices dos adultos e do roteiro se torna a filha de Roschdy, cujas falas de coerência realçam o absurdo de seus pais perdidos pela instabilidade social de seu tempo. Deve-se fazer tudo para sustentar sua família, mesmo a ponto de perder a dignidade?


A trilha sonora também não ajuda muito, pois tenta com uma orquestra grandiosa forçar a comicidade de alguns momentos que nem deveriam ser cômicos. Enquanto que a reconstituição da década de 70 e seus papéis de parede multicoloridos de caleidoscópio reforçam o pastiche (gritantemente oposto ao sóbrio e lírico "Homens e Deuses", trabalho mais notório do diretor). No fim das contas, perderam-se as sutilezas, então, se era para fazer rir, que assim se assumisse de pronto, condizente do início ao fim, sem deixar os buracos de roteiro para tentar encaixar a homenagem que acabou não cabendo na pretensão.

 

Festival do Rio 2014 - Panorama do Cinema Mundial
O Preço da Glória (La Rançon de la Gloire)
França / Suíça, 2014. 114 min.
De Xavier Beauvois
Com Benoit Poelvoorde, Chiara Mastroianni, Peter Coyote, Nadine Labaki