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EM BREVE NOS CINEMAS

Festival do Rio 2014: O País de Charlie


 

Por Filippo Pitanga
28/9/2014


Quantas culturas foram apagadas pelo tempo e pelas chamadas neocolonizações. O povo aborígene nativo australiano decerto foi uma das "vítimas" históricas. Do ponto de vista antropológico, sempre é intetessante revisitá-los, fazer um retrato discoveryiano. Imagine-se, então, uma reprodução dramática fiel, muito bem defendida pelo intérprete ganhador de melhor ator na Mostra Un Certain Regard de Cannes este ano, David Gulpilil (dos "Crocodilo Dundee" e "Geração Roubada"), sobre a alienação social daqueles que foram os dominados pela formação hierárquica de poder inglês sobre terra australiana. Este é "O País de Charlie" ("Charlies Country" no original, dirigido por Rolf de Heer, com o qual Gulpilil já colaborou antes).


Numa mistura do experimentalismo na imensidão da vida selvagem e do próprio self como em "Na Natureza Selvagem"; e a sublimação da pobreza extrema com nobreza do espírito como em "Indomável Sonhadora", esta bela prova da resistência humana dos costumes e tradições frente a obliteração pelo tempo e pela modernidade tem uma pegada documental, não dispensando leves tons cenicamente cômicos como descontração de identificação da plateia com a realidade. Isto, pois, o argumento principal segue o aborígene Charlie que serve de guia para os homens brancos em meio a uma natureza mais erma da Austrália, à margem do lado urbano, e enfrentando inúmeras agruras e privações impostas pela ordem social que não mais comporta os nativos da própria terra. Por exemplo: eles comiam apenas o que caçavam, e, sem oportunidade real de emprego remunerado para eles, como podem ter o que comer se são proibidos de caçar ou ter porte de armas?! Ou seja, a proposital dicotomia cômica e dramática se nivelam justamente pelo absurdo da burocracia que não se encaixa a todos, e muito menos atende a necessidade de todos do outro lado da balança (lei de verdade num Estado Democrático de Direito deve exigir obrigações tanto quanto dar direitos).


Com um desenrolar levemente prejudicado por alongar certos segmentos, principalmente as penalidades sob as quais o protagonista se torna infligido, ainda assim momentos marcantes seguram a força narrativa, como quando raspam seus cabelos e barbas longas e matreiras, característica indissociável do faceiro personagem. Ou quando ele descobre que a mesma floresta de suas origens pode servir de "supermercado" às avessas. E, no fim, o maior tom pessimista adotado, mas necessário, comprova o anacronismo da situação deles, mesmo que quebre um pouco o ritmo e vire uma sessão de psicanálise, repetindo os mesmos ciclos para tentar quebrá-los. Ainda assim, com uma câmera sempre nos grandes olhos expressivos e sofridos de Charlie, ainda há muito mais o que contar mesmo após o fim da projeção. Decerto um personagem que não será esquecido.

 

Festival do Rio 2014 - Mostra Panorama do Cinema Mundial
O País de Charlie (Charlies Country)
Austrália, 2014. 108 min.
De Rolf de Heer
Com David Gulpilil, Peter Djigirr, Luke Ford, Jemmifer Budukpuduk