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EM BREVE NOS CINEMAS

Festival do Rio 2014: Os Fins e os Meios


Por Emmanuela Oliveira
28/9/2014


Em "O Fim e os Meios", novo filme do cineasta Murilo Salles, de "Faca de Dois Gumes" (1989) e "Nome Próprio" (2007), a Brasília política é o pano de fundo, característica que promete despertar a curiosidade dos brasileiros. A tática utilizada para conseguir a identificação do público é inserir pessoas de fora no âmbito do poder do país para mostrar, no decorrer da projeção, que a humanidade desses personagens é fatalmente corruptível. Paulo (Pedro Brício) e Cris (Cintia Rosa), um publicitário e uma jornalista, partem do Rio de Janeiro para a capital do país com planos de prosperidade. Ele foi contratado para preparar a campanha de um senador (Emiliano Queiroz) e Cris passará a assinar matérias políticas. No convívio dos dois, nota-se um enfoque interessante em traços marcantes de cada profissão, o publicitário promove e a jornalista denuncia, algo que providenciará o primeiro importante atrito do filme.


As cenas iniciais fazem sentido apenas após o conhecimento do destino dos personagens. Nelas vemos Paulo em completa reclusão, consequência dos atos anteriores que o filme ainda vai exibir. Uma amostra do fim antes do desenvolvimento dos meios. Hermila Guedes e Marco Ricca interpretam o casal Laura e Hugo, a filha e o assessor de imprensa do senador que terá sua imagem sob os cuidados de Paulo. Hermila Guedes, na pele da deputada debilitada pelas próprias amarguras, não tem no filme o grande destaque que deveria, mas deixa sua marca em uma cena específica, quando condena as destrutivas ambições do pai.


Ao destacar seus personagens corrompidos, deixando de lado detalhes mais concretos dos meandros do Congresso que seriam bem vindos, o cineasta leva ao extremo a ideia da impossibilidade de escapar ileso através da formação de um improvável triângulo amoroso. Cris começa a trair Paulo e outra relação de poder, que vai bem além do acordo contratual, se estabelece. Na personagem da jornalista, nota-se o desejo autopunitivo na continuidade de sua traição, mais um erro nesse ambiente repleto de irregularidades irresistíveis, como o montante de dinheiro que Paulo tenta, mas obviamente não consegue, descartar. Ao ilustrar apenas parte da corrupção que desgoverna o Brasil, Murilo Salles desaponta ao pegar o atalho do exagero, quando inclui a inusitada fraqueza carnal de Cris até o ponto que essa infidelidade não muito convincente ganhe lugar privilegiado na narrativa.


Festival do Rio 2014 - Mostra Première Brasil em Competição
O Fim e os Meios
Brasil, 2014; 105 minutos
Direção: Murilo Salles
Com: Cintia Rosa, Pedro Brício, Marco Ricca, Hermila Guedes, Emiliano Queiroz