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EM BREVE NOS CINEMAS

Festival do Rio 2014: Pessoas-Pássaro


Por Victor Monteiro
26/09/2014

 

Filmes como "Crash - No limite" (2004), "Babel" (2006) e "Shortcuts" (1993) já alçaram voo alto quando resolveram apostar na fragmentação narrativa e na exposição explosiva da psiquê do homem contemporâneo. Essas características estão presentes em "Pessoas-pássaro", com a grande ressalva de que o longa de Pascale Ferran ainda adiciona mais deleites existenciais que instigam e ecoam na mente do espectador. Na trama, o interior e os arredores do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, servem de cenário para a construção de um mosaico singelo, porém profundo, sobre a (falta de) comunicabilidade nas relações e o sentimento impulsivo de se criar uma utopia na vida, seja ela plausível ou lúdica. Logo na primeira cena, na qual a câmera transita por pessoas afirmando a introspecção de cada uma, já se pode notar que "Bird people" (no original) vai traçar um caminho intenso sobre a complexidade das relações interpessoais, numa sociedade onde a praticidade para se deslocar existe tanto física quanto psicologicamente. No centro da história estão Gary (Josh Charles, o Will da série "The good wife"), um executivo que vai à França a trabalho e no meio da viagem, imbuído de solidão e clausura, decide desistir de tudo que já havia conquistado, da carreira à família; e Audrey (Anais Demoustier), uma camareira do hotel mais próximo ao aeroporto, que tenta enxergar a personalidade de cada hóspede através da observação de seus costumes e pertences nos quartos. O filme, que narra a história de Gary e Audrey separadas uma da outra - primeiro a dele e depois a dela -, tem como mérito a capacidade de tratar os dois protagonistas como uma espécie de eu-lírico, onde cada olhar, gesto e palavra tem vida própria e toda atitude faz refletir. São também colocados em pauta questionamentos que assombram o mundo cosmopolita globalizado, por vezes utilizados de forma crua e realista, por outras de jeito idílico, deixando prevalecer metáforas e sonhos, mas sempre com propósito crítico ferrenho. Um exemplo disso é como a tecnologia está sempre presente e ao mesmo tempo sempre aparecendo como a causadora do fim da credibilidade e verossimilhança dos sentimentos puros, sendo a principal colaboradora para a criação de um ambiente social onde prazos são prioridade, padrões pré-definidos e a liberdade limitada. Assim como em seu filme anterior, "Lady Chatterley", a diretora preza pelos planos fechados e pelo minimalismo, ao buscar decifrar a beleza da simples existência, comparando, desde o título, o ser humano a animais, coisas e lugares. A mais original, porém, é a capacidade de Ferran transitar por diversos estilos narrativos em seu filme, uma vez que ela entra em universos míticos como até mesmo o dos contos de fada, onde pessoas podem virar pássaros, narradores aparecem esporadicamente e a moral é que a felicidade existe e pode estar em qualquer lugar do mundo.

 

Festival do Rio 2014 - Panorama do Cinema Mundial

Pessoas-pássaro (Bird people)
França, 2014. 128 minutos
Direção: Pascale Ferran
Com Josh Charles, Anais Demoustier, Roschdy Zem, Mathieu Amalric