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Festival do Rio 2014: Vietnã: Batendo em Retirada


Por Celso Rodrigues Ferreira Junior
25/9/2014


Em janeiro de 1973, a assinatura do Acordo de Paris pelos governos da República Democrática do Vietnã (Vietnã do Norte), da República do Vietnã (Vietnã do Sul) e dos Estados Unidos da América pôs fim a um dos maiores conflitos armados da história recente. Através dele, estabeleceu-se um cessar-fogo entre os países em conflito e a retirada das tropas norte-americanas do território em guerra. Com a renúncia de Nixon após o escândalo Watergate, a fragilidade do acordo veio à tona e o Vietnã do Norte voltou a investir contra o Sul, que viu a promessa de apoio norte-americana em caso de descumprimento do tratado frustrar-se diante da resistência da opinião pública e da recusa do Congresso americano quanto à aprovação de um projeto de ajuda financeira para a região.


Tendo este cenário geopolítico como fundo, o documentário "Last Days in Vietnam" (no original), da diretora Rory Kennedy, se propõe a traçar um quadro evolutivo da guerra paralelamente ao desenvolvimento de um plano emergencial de evacuação dos norte-americanos radicados no país, projeto cuja execução acabou prejudicada pelo próprio embaixador norte-americano, Graham Martin, cujas motivações pessoais o levaram a atrasar ao máximo a concretização da estratégia, pondo-o em confronto com o próprio presidente Gerald Ford.


"Vietnã: Batendo em Retirada" sofre com dois problemas incontornáveis e que comprometem seu valor documental. Ao retratar os esforços dos Estados Unidos para retirar da Embaixada não apenas os cidadãos americanos, mas, também, milhares de vietnamitas que se amontoavam em suas dependências, a obra, além de ignorar o descumprimento da promessa de Nixon, assume um tom propagandista e tenta estabelecer Martin como a personificação do heroísmo ianque, apesar de ter sido ele o maior responsável pela demora na execução da operação, obrigando as Forças Armadas a adotarem a opção menos indicada para o caso, o que dificultou sobremaneira o trabalho dos soldados.


A partir dessa dificuldade, e sem qualquer preocupação em estabelecer um contraponto com a opinião pública na América, o filme passa a explorar a bravura destes homens e a desenvolver a ideia de que seriam heróis, lançando mão, inclusive, de frases de efeito, como "um marine nunca se cansa", e de trilha sonora em momentos chave. Com isso, a obra revela o seu segundo problema: o maniqueísmo da diretora na apresentação dos fatos. Embora seja impossível não se comover com o esforço das tropas no cumprimento de seu exaustivo dever, o tom ficcional predomina e, afasta a premissa básica de qualquer documentário: filmar o real.


Encerrada a projeção, fica a impressão de que Coppola, Kubrick e Stone, com suas obras ficcionais, contribuíram mais para a compreensão do conflito do que o documentário de Kennedy. Apesar de todos os méritos destes grandes diretores, não era para ser assim.

Festival do Rio 2014 - Fronteiras
Vietnã: Batendo em Retirada (Last Days in Vietnam)
Estados Unidos, 2013, 98 minutos.
Direção: Rory Kennedy