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EM BREVE NOS CINEMAS

Festival de Brasília 2014: Entrevista com Gabriel Mascaro


Diretor de Ventos de Agosto e também de Doméstica, o pernambucano conta um pouco da sua experiência enquanto realizador e idealizador do audio-visual brasileiro.

22/09/2014

por Filipe Pereira, em Brasília

Almanaque Virtual - Como foi referenciar a si mesmo como personagem e como foi lidar com a auto-morte?

Gabriel Mascaro - Eu já fiz um documentário sobre um personagem diretor, em As Aventuras de Paulo Bruscky, onde o realizador vive em um mundo do Second-Life, então já havia tido experiência em realizar um deslocamento em metalinguagem. E ter a sensação de ser um captador de vento é incrível, pois trata de algo externo, lidando com corpos e pessos estranhas, que traz um pouco da estranheza que sinto enquanto documentarista. No filme isto é difuso, pois o personagem some sem qualquer menção.

Almanaque Virtual - É como uma colisão de mundos?

Gabriel Mascaro - Sim, porque é uma realidade completamente diversa da minha, sem qualquer possibilidade de previsão psicanalítica. Talvez minha intenção seja mesmo transformar o ordinário para uma esfera maior, e aproximar o bizarro do ordinário. Meu filme dialoga com isso, ao mesmo tempo que se utiliza de um clima trash para isso.

Almanaque Virtual - Foi intencional apresentar a natureza como algo agigantado?

Gabriel Mascaro - Olha, o roteiro não trata de relação entre o Divino e o homem, tampouco é uma dicotomia entre o humano e a natureza. A relação é mais em outro campo, quase sobrenatural, pois as pedras respiram e um homem reconhece uma caveira de décadas atrás. Ele (o filme) não está caucado num realismo, mas consigo imaginar que a leitura do Divino sobrepondo o homem também é possível, até porque o imaginário da morte visa um deslocamento da morte. O lugar para onde os mortos vão não é nem o céu e nem o inferno, e sim o mar...

Almanaque Virtual - Assistindo Domésticas, percebi a importância que você dá a temática uma importância grande, mostrando um misto de comédia e tragédia, na vida das empregadas?

Gabriel Mascaro - Este personagem que você citou mostra uma situação atípica, de uma personagem que precisa fica em uma situação incômoda, com saudades dos seus mas que trabalha pra fugir dos problemas. Isso tem a ver com o Ventos de Agosto, de não suavizar nada, e mostrar um gesto de violência em filmar tudo. A atitude do meu personagem é cheia de sinismo, quase uma invasão.

Almanaque Virtual - Houve um preâmbulo com os atores mostrados em telas?

Gabriel Mascaro - Somente com Jeová ( que fez Jeison) e com Dandara (atriz que interpretou Shirlei), mas com o resto do povo não houve qualquer preparação, somente registrávamos. Nem a comunidade nós preparamos, uma benzedeira se recusou a benzer o defunto falso - Gabril diz aos risos.

Almanaque Virtual - E como foi o trabalho com a nudez no filme?

Gabriel Mascaro - Jeová já era ator, mas Dandara tinha pouca experiência, então deixamos ela basicamente fazendo laboratório com a senhora que fez a sua avó. A senhora de 95 anos não tinha muito idéia do que estava acontecendo, até confundiu a vida com o filme. A captação do som não foi direta, nós dublamos tudo na pós-produção, até para condizer com uma camada fotografica de naturalização, nós passamos tudo no estúdio. As vozes são altas, como microfones de ópera, até para aumentar o escopo de suspense.