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EM BREVE NOS CINEMAS

Trágica.3


Por Ricardo Schöpke

12/8/2014

"Trágica. 3". Antígona, Electra e Medeia. Sófocles, Eurípedes e Eurípedes. Caio de Andrade, Heiner Müller, e Francisco Carlos. Letícia Sabatella, Miwa Yanagizaua e Denise Del Vecchio. Três grandes personagens. Três tessituras. Três formas. Três sentimentos. Três dores. Três amores. Três tramas. Três sentenças. Três caminhos. Três guerreiras. Três sofrimentos. Três tragédias.

Antígona. Trágica 1. A coragem de uma princesa, filha incestuosa de Édipo e Jocasta, enfrentando um rei tirano, contra suas ordens déspotas que proíbe o enterro de seu irmão Polinices, morto em batalha, pelo poder, entre irmãos, leva Antígona a ser emparedada, a perder o seu amor, a cometer o suicídio,  e a levar o seu amor Hêmon - filho de  Creonte - também ao suicídio.

Electra. Trágica 2. Amargurada e impulsiva, levada mais pela fúria do que pela maldade, induziu seu irmão Orestes a assassinar sua mãe, vingando a morte de seu pai, arquitetada por Clitemnestra. Esse seria um ato do qual ambos se arrependeriam, pois, antes de sua morte, a rainha havia dito que amava os filhos, e que tratava-a mal para que Egisto, seu amante e também inimigo e assassino de Agamemnon, não desconfiasse de seus sentimentos pela filha, e, assim, não fizesse mal a esta. A princesa não se deixando levar pela compaixão, a mata sangrentamente. Mais tarde, Electra desposa Pílades, amigo de Orestes e seu primo, o filho primogênito do rei Estrófio.

Medeia. "Trágica 3". Mulher carregada de amor e ódio a um só tempo. Representa um novo tipo de personagem na tragédia grega, esposa repudiada e perseguida, se rebela contra o mundo que a rodeia, rejeitando conformismo tradicional. Tomada de fúria terrível, mata os filhos que teve com o marido, para vingar-se dele e automodificar-se. É vista como uma das figuras femininas mais impressionantes da dramaturgia universal.

Três fragmentos. Três sínteses. Três unidades. Três poemas. Três grandes possibilidades para um ótimo exercício do ofício do ator. Estão lá todos os reconhecimentos que tem o homem contemporâneo sobre o gênero grego. O tom, o peso, a força, a gravidade, a forma, a voz de peito, a voz de pé, os movimentos solenes, os gestos essenciais e as marcas equacionais.

Guilherme Leme, com um  olhar de lince na concepção e direção, constrói uma narrativa épica de grandes gamas trágicas. Com muita elegância, sutileza e sensibilidade, monta um quebra-cabeças de peças poderosas. Atrizes e atores que são os seus próprios instrumentos corporais, vocais e musicais. Ao mesmo tempo em que atuam, se movem e são música. Música, sons onomatopéicos deslizantes. Sabatella, Antígona, se apresenta completa, inspira e transpira verdade, entrega, imersão total, mergulho profundo nas regiões sonoras e nos alcances vocais, passando da delicadeza, para a contundência, de uma região mais grave e sussurrada, para uma região mais aguda, de voz de cabeça. Uma atuação primorosa.

Yanagizaua, Electra, já mais armada, por uma concepção de personagem mais arquetípica, rígida, clássica e tradicional, apresenta uma atuação mais dialogada com o mito trágico reconhecido e as suas mazelas seculares. Del Vecchio, Medeia, com uma voz poderosa, uma força viva e grande peso cênico, arrebata a todos nós, com a sua visceralidade naturalmente trágica, pela força do seu corpo, do seu semblante, da sua dor profunda na sua perda materna irreparável . Um trabalho digno dos Deuses da tragédia, a lhe condecorar.

Envolvidas por uma luz estado de alma de Tomás Ribas, com paletas azul e vermelha, e por construção de espaços densos, e simbólicos. Quadros vivos de luzes e ausências.  Um palco nu de Aurora Campos, com um telão que emoldura, com forte presença as cenas anteriores, e que projeta com riquezas de detalhes e aprofundamento, na última cena, os movimentos de duas crianças inocentes que bailam em areias e mar, de um praia. Microfone de época e imagens em p&b levam a encenação à tempos antigos, em contraste com as ideias contemporâneas de atuação, movimento e som; além de um elegante figurino de Glória Coelho.

Teclados, instrumentos de percussão e sopro, além de compor a atmosfera cênica, são delicadamente orquestrados pelos próprios atores, interpretação e partitura musical, se unem em um só coro, e amplificam a cena minimalista. Fernando Alves Pinto e Marcelo H, constroem (junto com Sabatella) uma múltipla e multifacetada trilha sonora original, orgânica, pontual, passeando com propriedade por vários instrumentos, e dando corpo a Hêmon, e a Orestes, respectivamente.

"Trágica 3". Trágico contemporâneo. Explosão de voz. Estatismo externo. Intensidade interna. Baixo amplificado. Fragmento. Universo. Minimalismo.

  

SERVIÇO: "TRÁGICA.3"

Onde: Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro/ RJ - Tel: 3808-2020).

Quando: sexta a domingo. Sextas, às 19h. Sábados e domingos, às 17h e 19h. (Até 14 de setembro).

Quanto: R$ 10,00; e R$ 5,00 (meia).