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EM BREVE NOS CINEMAS

O Homem da Cabeça de Papelão


Por Ricardo Schöpke
29/04/2014

A vasta, e tão rica, dramaturgia brasileira do século 19 vêm sido negligenciada há muitas décadas. Nomes como o dos três maiores comediógrafos brasileiros Martns Pena, Arthur Azevedo e França Junior - para citar alguns deles apenas -, raramente podem ser vistos em nossos palcos. No século passado, o grande marco histórico das artes cênicas foi a montagem de O Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues, dirigido pelo mestre polonês Zbigniew Ziembinski, em 1943, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Desde então, a montagem tornou-se antológica pois Ziembinski revolucionou o moderno teatro brasileiro, atribuindo importância ao papel do diretor, como o artista responsável pela criação e concepção de uma  peça, em substituição ao antigo ensaiador das hierarquias da cena, na era de Procópio Ferreira. Este foi o seu maior marco na recente história das artes cênicas brasileira. Isso, sem deixar de falar na substituição das luzes de ribalta por refletores pendurados, e na criação de uma cenografia inovadora de Tomás Santa Rosa, a partir do texto genial de Nelson, que apresentava três planos de atuação: o campo da realidade, o campo do sonho e o campo da alucinação. Depois desta montagem o teatro brasileiro jamais foi o mesmo, principalmente na proliferação de dezenas de montagens de textos de Nelson, nestes 71 anos.

Assim, durante muitas décadas a expressiva dramaturgia do teatrólogo e contista João do Rio (1881- 1921), ficou um pouco esquecida em nossos palcos. Felizmente a Cia Dramática de Comédia resolveu investir no ótimo texto O Homem da Cabeça de Papelão de João do Rio, em sua montagem original de 2008, que retorna agora ao palco do Teatro Dulcina, na comemoração de seus 20 anos, no projeto de Ocupação da FUNARTE:  "Veja a Cena, Ouça a Canção" , que abordará diferentes vertentes do teatro musical.


O conto o  Homem da Cabeça de Papelão se passa em um país imaginário, cujas semelhanças com o Brasil não são meras coincidências. No país do sol - uma das grandes características de nosso clima - vive Antenor, um homem que, pressionado pela intransigência de uma sociedade, que não aceita as diferenças, acaba trocando a sua brilhante cabeça por uma de papelão, mais condizente com o pensamento medíocre da maioria da época, que atribuia grandes valores às mesquinharias humanas.


O espetáculo, dirigido por João Batista, se debruça em um formato diferenciado para o gênero musical, apresentando grande precisão no trabalho consciente dos atores em suas partituras físicas e vocais. Todo o espetáculo carrega em seu conceito, um clima soturno, acéptico e que dialoga bastante com algumas vertentes do teatro do leste europeu do dramaturgo realista/surrealista russo Nicolai Gogol, do escritor Franz Kafka (nascido em Praga no império astro-húngaro), do expressionismo alemão, e do teatro narrativo, e épico, de Bertolt Brecht. Todo o gestual é bastante econômico, e orgânico. Isto colabora, em muito, com a movimentação do conjunto, que caminha com muito boa unidade durante toda a encenação.  Muito interessante também é a ideia cênica de desconstrução, e  construção da rica personagem de Antenor, durante a sua trajetória de crescimento na encenação.


A iluminação de Renato Machado, que funciona como co-autora da encenação,  é muito delicada, bem definida, recortada e bastante expressiva na exploração dos desenhos dos raios solares que banham o país do sol, durante toda a narração da história. Além de explorar os contrastes entre os campos claros e escuros, o preto, o branco e o cinza, a mudança de luz brusca, pulsando com as reações e mudanças de lógicas das personagens, são valorizadas por um grande volume de fumaça. Uma luz inteligente, vigorosa e agente das ações. As músicas e direção musical de Marcelo Alonso Neves também é absolutamente integrada, e nos surpreende com a sua força e dinâmica dramático-narrativa. Ela funciona quase que como um texto cantado. A música de abertura, em tom de sussurro é de grande riqueza vocal e teatralidade. Sendo todas bem executadas pelos atores/músicos, que além de cantar, tocam instrumentos.


O cenário de Doris Rollemberg é interessante, mas apresenta pequenos problemas de execução. Ele nos remete a um mundo burocrático, cheio de caixas de papelão, dispostas como um grande arquivo de "memórias" ou de um ferro velho de "ex-cabeças pensantes" - um grande acervo de mentes brilhantes, ou no mínimo diferentes. Um mundo cheio de compartimentos, de fragmentos, que estão interligados entre si. Entretanto, algumas destas caixas, - que são manuseadas durante a peça -,  ficam irregulares, e denunciam que algo que está ali, em breve poderá ser destacado e acionado, e entregando a nós, uma parte do jogo cênico, tão bem engendrado. As caixas, como todo o espetáculo que se constrói diante de nós, deveriam também seguir a linha da direção do espetáculo em formar os espaços cênicos de forma surpreendentes e oculta anteriormente à nós. Além disso, as mesmas não parecem ser feitas de um material resistente, e deixando os atores em algumas cenas, com um certo, e discreto, desconforto ao sentarem-se nas mesmas. Isso impede um fluidez, sem tirar o brilho, é claro, de toda a ótima direção de Batista. A paleta de cores dos ótimos figurinos de Mauro leite também nos remete a Rússia, e aos países do leste europeu. Travando um diálogo com a direção, que apresenta uma atmosfera kafikiana, como já mencionado acima. Assim, tanto os figurinos, como as caixas de arquivo do cenário nos levam a uma repartição ao estilo de O Processo de Franz Kafka, e ao teatro surrealista russo.


Cleiton Rasga apresenta um trabalho de alta qualidade técnica como Antenor. Seu desempenho é excelente, preciso, limpo e cirúrgico. Todos os seus movimentos são econômicos e na medida certa. De una maneira geral poucos gestos não são essencias na encenação bastante asséptica, onde os atores, em sua maioria, estão bem integrados com a linha de direção proposta. Sonia Praça como Dona Esther apresenta um ótimo trabalho, muito rico e consistente em suas diversas gamas e nuances refinadas. Sendo bom também o trabalho de Giselda Mauler, em suas intercenções. O restante do elenco cumpre a sua função.


O Homem da Cabeça de Papelão é um trabalho de grande impacto, onde o conceito teatral é bastante nítido, valorizado pelo ótimo entrosamento que pode alcançar um trabalho continuado de Cia. Ainda que não seja nada fácil se manter em 20 anos, é algo muito sério vermos um trabalho de 2008 tão bem ensaiado, tão preciso, e tendo muito ainda que nos comunicar em assunto e estética. Um dos bons trabalhos deste ano de 2014. Parabéns a Cia Dramática de Comédia.

SERVIÇO: "O HOMEM DA CABEÇA DE PAPELÃO"
Onde: Teatro Dulcina (Rua Alcindo Guanabara, 17 - Cinelândia/ RJ - Tel: 2240-4879).
Quando:  quinta a domingo às 19h. (Até 4 de maio).
Quanto: R$ 20,00; e R$ 10,00 (meia).