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EM BREVE NOS CINEMAS

Cães Errantes


Zeca Seabra
13/06/2014


Vencedor de 10 prêmios internacionais, dentre eles o prêmio especial do júri no Festival de Veneza de 2013, chega ao circuito brasileiro um dos mais desafiadores e provocantes filmes do ano. Cães Errantes (Jiao You, 2013) do diretor malaio Tsai Ming-lian (mais conhecido entre nós, pelo Sabor da Melancia de 2005) decididamente não é uma obra aberta. A narrativa, plena de longos planos fixos, escassos diálogos e sem nenhuma trilha musical é uma combinação de extremo neo naturalismo com uma arquitetura alegórica onde uma opressora câmera, (sempre de cima para baixo ou espreitando por frestas) visualiza ângulos que mostram o desespero de uma realidade latente nos grandes centros urbanos.

 

O argumento fala de sobrevivência e usa como pano de fundo uma família de desabrigados (recentemente abandonados pela mãe) que vagam por uma moderna metrópole em busca de abrigo e comida. Enquanto o pai (Lee Kang-Sheng) segura placas de anúncios de imobiliária (simbolizando uma insígnia da miséria), os dois filhos pequenos vagam (como os cães errantes do título) em busca de amostra grátis de sopas e restos de comida. Uma mulher que trabalha em um supermercado, também sem teto, oferece cuidados maternos a este pequeno grupo de marginalizados.

 

A proposta de Tsai é perturbar o espectador e tirá-lo de sua zona de conforto através de sequências intermináveis (quase eternas) que deturpam a tradicional narrativa dramática. As variantes são múltiplas e o desafio de cada espectador é observar as gradações emocionais destes indivíduos e traduzi-las lentamente através de uma nova perspectiva (em especial a sequência que envolve um repolho). Espertamente o diretor vai moldando a paciência da audiência até chegar ao agonizante clímax final: um close de aproximadamente 15 minutos de duração onde dois rostos admiram um mural na parede de uma sala semi escura.

 

Com este filme Tsai confirma sua condição máxima de cineasta imagético, utilizando a equação imagem + tempo = reflexão para oferecer ao espectador uma incomparável experiência sensorial onde o radicalismo estético atua como um efeito hipnotizante. Cães Errantes (Jiao You) é fascinante, mas muito doloroso.