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EM BREVE NOS CINEMAS

Humor


Por Ricardo Schpke
10/04/2014

O teatro da delicadeza da alma, que nos leva para muitos mundos interiores. Interiores nos espaos fsico-geogrficos, e dos lugares mais profundos que esto escondido dentro de ns. Nossos segredos, nossos pensamentos mais ntimos, nossas vilanias e crueldades. Camadas e camadas sendo desvendadas. Assim a impresso que eu tenho deste expressivo grupo mineiro Quatroloscinco- Teatro do Comum, que possui uma pegada muito delicada em abordar temas tocantes, que concernem ao ser humano. Foi assim com s uma Formalidade, que assisti em 2010 no Festival de Teatro de Curitiba. Tinha eu, alguns horrios vagos, e resolvi incluir no meu itinerrio este singelo espetculo que era apresentado no mini-Guara, uma pequenina sala de pouco mais de 50 lugares.

Lembro-me, puxando do mais fundo de minhas memrias, que fiquei bastante tocado com este espetculo que j apresentava um enredo e uma encenao muito envolvente, com caractersticas muito interessantes do povo mineiro, misturada a uma linguagem diferenciada. Comendo pelas beiradinhas, de uma forma discreta, aos poucos eles foram me conquistando com toda aquela simplicidade e competncia na narrao de duas histrias: uma entre dois irmos, aps a morte do pai, e a outra sobre um casal que mudava-se para uma casa nova. Eles acabaram por me arrebatar e conquistaram o meu corao; tanto que, no meio de mais de 400 espetculos do Fringe, eu voltei para rev-los. Uma atitude rara no meio de uma imensa oferta de trabalhos dos mais variados estados, das mais variadas dramaturgias, estticas, conceitos, possibilidades, dinmicas....mas l estava eu, outra vez, na plateia - como um "filho retornando casa nova" -, e agora levando comigo mais alguns amigos jornalistas, para experimentarem sentimentos to profundos despertados em mim.

O grupo Quatroloscinco- Teatro do Comum foi tomando mais corpo durante estes anos, conquistando mais espaos no Brasil - e fora dele -, e hoje j est visitando o Rio de Janeiro com certa frequncia. Atualmente, o grupo, encontra-se em cartaz na Caixa Cultural com o novo projeto Humor de Assis Benevenuto e Marcos Coletta, e com direo coletiva do grupo.

A pea Humor conta a histria de um homem que sofre de uma doena rara que o faz perder o humor. O mote principal fala da morte, representado por um ser ausente de qualquer expresso, cercado por uma empregada dedicada, um mdico e um advogado abutre, que vive sendo perseguido por pombos. O tempo, a finitude, as filigranas da vida, vo sendo desvendadas diante de nossos olhos atentos e curiosos pelas partituras fsicas das cenas.

Uma das grandes qualidades do grupo justamente a fora e o equilbrio entre a dramaturgia e a encenao. Um corpo unssono e bastante homogneo. Um grupo que se caracteriza por um timo trabalho de pesquisa, de investigao e de experimentao, com aparente simplicidade, mas que apresentam questes bastantes sofisticadas de uma nova escrita contempornea. Contando neste projeto com a orientao criativa de Rodrigo Campos e com um workshop de improvisao de Gustavo Miranda. O texto narrativo de Assis Benevenuto e Marcos Coletta muito rico nas descries, mincias e detalhes dos trajetos das personagens; e ao comear o espetculo j podemos identificar os caminhos que sero trilhados pela encenao. Um jogo muito rico de quebras e voltas do texto, interagindo com a plateia. O tempo fracionado, suas histrias so partidas, onde se mistura presente, passado e futuro, em uma comdia dramtica, feita com muita determinao por todos os atores-diretores. A narrao viva, desenhada dentro de nosso crebro, pulsante, instigante, em diversos tempos e pontos de vista. Tudo ricamente construdo diante de ns, desde o texto, passando pela construo e desconstruo da encenao, pela montagem de grande parte da bela cenografia de Ed Andrade, que nos remete ao casario antigo com diversos tipos de basculantes, ao tempo da vida que anda, no tijolo por tijolo. O mesmo acontecendo com a realizao da caracterizao do doente, como se ele fosse ficando doente aos poucos e a vida, o tempo, fosse lhe dando aquele formato esvaziado e esmaecido. tambm muito teatral, e divertido, o efeito de troca e retomada das personagens, com diferentes formas de atuao, e sensibilidades distintas. Muito delicadas tambm a luz de Marina Artuzzi, o figurino de Mariana Blanco e a trilha sonora original de Lucas Yogananda que complementam muito bem todo o ambiente, em uma grande atmosfera ldica, recheada de teatralidade.

Na atuao do grupo mantida a fora do conjunto, cada um com as suas caractersticas de atuao, e especificidades na cena. Cabe ao timo Italo Laureano a parte mais expressiva, forte e teatral, assim como a Rejane Faria; e Assis Benevenuto e Marcos Coletta fazem o contraponto mais naturalista e neutro. Um bom equilbrio entre todos eles.


O que vemos diante de ns, com o grupo Quatroloscinco - Teatro do Comum, a verdadeira funo e vocao das artes cnicas, o teatro. Investigando e vivenciando o bom teatro, a audcia, a astcia, os desafios de buscar o novo na cena, em cada um dos trabalhos, sem perder as caractersticas da singeleza dos interiores fsicos e emocionais, e da cor local mineira. Sempre muito bom, ver um bom teatro de verdade.

SERVIO: "HUMOR"
Onde: CAIXA Cultural Rio de Janeiro - Teatro de Arena. Av. Almirante Barroso, 25, Centro (Metr: Estao Carioca). Tel: 21 3980-3815.
Quando: quinta a domingo, s 19h (at 13 de abril)

Quanto: R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia)