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EM BREVE NOS CINEMAS

Noé


Por Filippo Pitanga (ao final, debate entre Filippo e Sônia Rocha)
27/03/2014

 

Nietzsche já dizia que quando se olha adentro demais do abismo, o abismo olha de volta para você.


Quem nunca ouviu falar do mito da Arca de Noé ou do grande dilúvio? Algo que teria acontecido há milênios atrás e comprovado cientificamente no campo geológico. Mas biblicamente foi muito mais do que isso: é dito que serviu para purgar a Terra de todo o mal e abusos predatórios para onde a humanidade estava enveredando (AINDA ESTÁ!), pois só a família de Noé além de um casal de animais de cada espécie deveria repovoar o planeta (bem, os hermafroditas como sapos e etc nem precisavam de par, né? rsrs).


Pois seria fácil um filme sobre isto descambar para o extremismo religioso, certo? Ou Hollywood querer fazer um pipocão cheio de efeitos especiais, como esta história já rendeu em Todo Poderoso 2. - Porém não nas mãos capazes do existencialista nietzschiano Darren Aronofsky, com filmes que perscrutam numa espiral pelo lado sombrio de si mesmo (da derrocada frenética das drogas em Réquiem para Um Sonho, à alfinetada precisa no descartável hollywoodiano escalando o ex-galã Mikey Rourke como o fracassado O Lutador).


Desta vez, mesmo à mercê de exigências dos estúdios para fazer um blockbuster, ainda assim deu alta carga autoral (aproximando-se menos de seu trabalho mais bem-sucedido e redondinho, Cisne Negro, e mais do nada unânime e onírico A Fonte da Vida, o qual até hoje eu defendo ferrenhamente). Sim, há uma acentuação bíblica da podridão humana e, decerto, Noé acaba concentrando outros personagens bíblicos em sua retidão moral, como Abraão, Moisés e cia. Porém, os maiores trunfos de Darren foram 2: o primeiro, não retratar Noé necessariamente como O Eleito, o escolhido... ele é bastante humano, e as palavras de Deus são um fardo nada claro a serem interpretadas. Nisto Russell Crowe foi muito bem escalado para interpretar um limiar com a quase loucura, nem herói nem vilão, tentando acertar através de seus erros e deteriorando mentalmente (lembra muito a personagem de Jack Nicholson em O Iluminado).


O Segundo foi o fato de Aronofsky suscitar debates intrigantes além do que a Bíblia propõe, como, principalmente, se o lugar do ser humano estaria ou não garantido na Arca e no Novo Mundo, se foi a própria espécie a responsável pela destruição de todas as outras. Vai depender das interpretações de Noé das palavras misteriosas de Deus, e das provações que sua família passará. Só depois de entrarem na Arca é que os papéis coadjuvantes realmente crescem em dilemas morais, justificando nomes de peso como Jennifer Connelly (a qual já atuou com Crowe no oscarizado Uma Mente Brilhante) como a esposa de Noé, Logan Lerman (com Crowe também em Os Indomáveis) como o filho rebelde, e a atual musa indie Emma Watson (de Harry Potter e que ja atuou com Lerman em As Vantagens de Ser Invisível).


Aviso aos navegantes: é um filme denso, às vezes impiedoso (o Antigo Testamento tinha um Deus muito mais vingativo do que o Novo, a partir do perdão que Cristo trouxe), quase nada pipocão como está sendo divulgado, mas que, para os interessados em bom debate e análises mais profundas, vão se banquetear!


PS1: Nos quesitos técnicos, elogios à montagem das cutscenes (cenas de corte, de interlúdio) sobre o mito da Criação (aludindo à A Árvore da Vida), muito bem boladas a partir da colagem de retalhos de imagens, como se fosse em stopmotion; porém nem tão elogiosa foi a inserção dos anjos caídos, os quais, apesar de boa ideia na teoria, e louvável o saudosismo da técnica clássica de stopmotion com eles também, neste caso pareceu destoante e defasado na trama.


PS2: atenção a algumas curiosidades bíblicas que levam a uma caçada tipo aos antigos easter eggs que realmente dá sobrevida ao filme e diverte: como de que maneira os animais não se engalfinharam dentro da Arca? Como a humanidade aflorou se no início só havia Adão, Eva e seus filhos (incesto? Pedofilia?...)? De onde vieram as outras etnias se eles eram caucasianos? Para construir a Arca não foi necessário 1 baita desmatamento? Foi só descobrirem a uva que o homem já conseguiu transformar em vinho e ficar mamado, rsrs?????

 

Debate entre Filippo Pitanga e Sônia Rocha (com spoilers!)

 

Filippo: PARA UMA ANÁLISE REALMENTE MAIS PROFUNDA TEM DE SE INFELIZMENTE REVELAR SPOILERS, POIS MUITO DO QUE ACONTECE, MESMO SEM QUERER ESTRAGAR A DIVERSÃO DE QUEM AINDA NÃO VIU, DEVE SER ESCRUTINADO COM VALORES INCRIVEIS!!!!!!!!!!!!!!!!!
só o lance da carne e do vegan a la Avatar, rsrs. e que cada bicho da barca que o invasor comeu acabou com uma espécie, rsrs, dá muito pano na manga.  

 

Sônia: Em relação ao Noé, é debate para horas, e mesmo sendo uma discussão bíblica, regado a muito palavrão. Quanto aos spoilers, é verdade. Análise tem que ser feita quando quase todo mundo já viu, porque tem que se explicar o raciocínio e embasar o argumento com as cenas.
Em relação as inserções de "explicações" que o livro de Gênesis deixa lacunas, e Aranofsky tem a coragem de inserir a sua versão, eu achei genial. Mas eu vou parar no Vegan, não vou cogitar as outras possibilidades. O que pretendo com meu texto, a ser publicado no blog daqui a umas duas semanas é mostrar as viabilizações que Aronofsky cogitou para dizer quem era o Noé da Bíblia (porque é o Noé da Bíblia) sem usar a cor forte que história original traz. Por exemplo, na história do Gênesis não há as crianças e a cogitação do sacrifício delas, mas o Noé que cai em tentação (bacanal) com as próprias filhas (noras) porque os meninos eram casados. Se Aranofsky põe isso no filme, ele estaria ferrado. Então, inteligentemente, ele coloca o sacrifício bíblico, institucionalizado, o de criancinhas, para mostrar que era um Noé falho, como todos nós. Aronofsky ainda diz isso com todas as letras, quando põe a filha postiça conversando com ele à beira da caverna, no monte ararates.
Ou seja, é uma obra que logo no início, se autodenuncia.....No princípio era o nada....
Vale discussões mil, pena que muita gente não entendeu. 

 

Filippo: concordo em gênero numero e grau. EU AMEEEEEEEEEEEIIIIII o aranofsky ter levantado a questão se o ser humano mereceria ou não seu lugar na arca. que nos eh que corrompemos o mundo e se o animal falho somos nos, os defeituosos ("feitos à semelhança Dele"), então será que merecíamos o "Novo Mundo" (e daí a ideia do sacrifício tipo o de Abraão fica tão perfeita) -- isso sem falar na analogia de novo mundo com as colonizações e neo-colonizações -- usurpar de novas terras dos outros -- sem nem falar da árida e dolorosa cena de eles comendo enquanto ouvem agonizantes berros das pessoas morrendo no mundo afora (tipo inferno de Dante -- purgatório). Poxa, e a origem dos árabes?! SIM, a própria Bíblia assume que eles vieram dos judeus, da separação dos filhos de Isaque pai de Jacó, e aqui a mesma divisão ocorre através dos filhos de Noé. Sem falar que todos eram polígamos, a própria Bíblia previa mais de uma esposa e ainda concubinas, só pra manter a linhagem dentro da própria família -- eugenia! -- então a tal historia do incesto pedofilo ficou subentendida, até porque o descendente de Caim que entra na barca com eles promete arregaçar (rsrs) todas as mulheres do barco...(por isso não dava pra botar isto no arquétipo do Crowe tbm...)
E o lance da carne eh super antropofágico -- eh como se fosse a historia da maçã toda de novo ... consumir a carne seria consumir o conhecimento do outro, conhecimento proibido -- pois "religião" exige cegueira, e a fé exige questionamento -- mas o que as pessoas vendem por aí hoje em dia é muito mais religião/burocracia, do que fé! 

 

Sônia: Essa questão da "imagem e semelhança" de Deus, fica bem marcada no capítulo do arco-iris (no Gênesis), e que foi o que eu fui buscar, quando assisti o filme, jurando que Aronofsky não havia posto ou que sequer prestou atenção e me ferrei. (que bom!)O arco-íris, era para que Deus "Não se esquecesse" de que fizera um pacto com o homem de não terminar o mundo com água, novamente. Mas, peraí!!!!!! Deus se esquece?.....é como você disse bem...defeituoso...à imagem e semelhança. E o fdp do Aronofsky não se esqueceu do bendito arco- íris. São os últimos 3 segundos do filme. Como um tapa. Foi a partir desse detalhe, que eu percebi que o cara fez uma pesquisa séria e atenciosa.
Já as questões do merecimento, as colonizações de terras que não são deles, à indiferença aos que gritam, as questões sobre a origem dos árabes por conta de território, a poligamia, a eugenia, ....todas essas questões são atuais, são formas de analisar a situação com os conceitos de hoje e ocidentais, ainda por cima. Essa história tem 5.000 anos. Pertence a uma outra cultura, pais e povo, e um outro tempo, e nos foi entregue através da tradução, da tradução, da tradução, e toda tradução é uma traição, como diz muito bem Manoel de Barros. Logo, tudo o que vemos, lemos, ouvimos em linhas religiosas, nada mais são do que , reinvenções aculturadas e manipulados para melhor manejar uma massa inculta.
Isso dá muito pano pra manga, amigo. Olha só o que é cinema, não é não?