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EM BREVE NOS CINEMAS

Por Que Você Não Vai Brincar no Inferno?


Por João Marcelo F. de Mattos
11/10/2013

Existem alguma pérolas da arte popular que mereciam ser mais famosas, pois iluminam não só instantes da realização da qual fazem parte, como servem de matéria de análise para toda uma vastíssima gama de manifestações de arte e entretenimento. Esta declaração de amor tão entusiasmada quanto canhestra e obtusa ao cinema feito pela obra japonesa "Por Que Você Não Vai Brincar no Inferno?", merece ser sintetizada por um filme americano de certa forma cultuado, mas que daqui a 300 anos, quando todos formos pó, tem que ser venerado pelas frases que vem a seguir. Ei-la, em cena de "Ghost World" (2001)*: Rebecca (uma Scarlet Johansson ainda pouco famosa): "Isto é tão ruim que é quase bom". Enid (a sumida Thora Birch): "Isto é tão ruim, que deixa de ser quase bom, e volta a ser ruim de novo". E é ruim para valer, acrescento.


Com uma trama quase impossível de ser resumida, humor nigérrimo, baldes de sangue (que inclui um homem com uma espada samurai trespassada no crânio na batalha final, andando e interagindo muito por aí), e uma atmosfera de exaltação cinéfila, "Por Que..." é o verbo encarnado para definir as intenções da sessão "Midnight Movies" do Festival do Rio: celebração - bem-vinda, aliás - do cinema de gênero. E também um filme para as pessoas abusarem da palavra "trash" ao definí-lo (o uso desta palavra está cercado de erros conceituais incríveis, que aqui não há espaço para elucidar), rirem com histeria, e saírem da sessão/escreverem nas redes sociais que "é tão ruim, tão escrachado, que é ótimo". Sério? Não é. Este filme representa uma overdose de voracidade fetichista sobre a cinefilia, pastiche agressivo e raso sobre uma elegia do final do 35mm para a era do digital. O acúmulo pelo acúmulo, o choque sem graduação de intensidade nada significam. O diretor correndo na chuva segurando uma montanha de rolos de filme que roubou do set da batalha/filme dentro do filme, ocasião em que seus amigos foram trucidados, podia ser uma imagem engraçada num primeiro plano, e até comovente no segundo. Depois da surra barata de luz, som, trilhas e planos maneiristas, tem zero efeito, a não ser a noção algo vaga de que, ainda bem, este filmeco está próximo do fim.


*como não li os quadrinhos de Daniel Clowes que originaram o filme, não sei se a frase já existia no gibi, ou foi criada por Clowes no roteiro, que ele co-escreveu com o diretor da obra, Terry Zwigoff. Ou quem foi o autor da mesma, ou se foi feita a quatro mão

Festival do Rio - Midnight Movies

Por Que Você Não Vai Brincar no Inferno? (Jigoku de Naze Warui)
Japão, 2013. 126 minutos
Direção, roteiro e montagem: Sion Sono
Com: Jun Kunimura, Fumi Nikaidô, Shinichi Tsutsumi, Hiroki Hasegawa, Gen Hoshino