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EM BREVE NOS CINEMAS

Tatuagem


Por Filipe Codeço

05/10/2013

Já se tornou até senso comum enaltecer a força do cinema feito há algum tempo em Pernambuco. Diretores como Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Claudio Assis, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Kleber Mendonça Filho, Marcelo Lordello, Daniel Aragão, entre outros, vêm edificando uma cinematografia inquietante e reconhecida em premiações no Brasil e no
mundo. Hilton Lacerda, roteirista de filmes emblemáticos dessa cena, dirigidos por alguns dos cineastas citados acima, faz sua estreia na direção com o belíssimo Tatuagem (Tatuagem, 2013) e dá mais um passo na afirmação do protagonismo de Pernambuco para o cinema autoral feito hoje no Brasil.

Tatuagem se debruça sobre a história de amor vivida por um artista subversivo e um soldado militar nos estertores da ditadura em 1978. O artista é Clécio (Irandhir Santos), líder da trupe/cabaré Chão de Estrelas com a qual apresenta espetáculos performáticos influenciados, entre outras coisas, pelo happening, pela poesia underground e pela tropicália. O soldado é Arlindo (Jesuíta Barbosa), mais conhecido pelo apelido Fininha criado pelos companheiros de quartel devido ao seu porte esguio. O encontro entre os dois acontece quando Arlindo vai entregar uma encomenda para Paulete (Rodrigo Garcia), irmão de sua namorada e um dos integrantes do cabaré. A partir de então se inicia um romance edificado em cenas de grande sensualidade e beleza poética. 

É bem interessante ver a forma como Hilton conduz o seu filme. A começar pelo requinte na criação do universo do Chão de Estrelas, para o qual convoca artistas da cena pernambucana atual e concebe não só um conceito estético para o grupo, como uma práxis e um histórico de suas obras. Os números teatrais e performáticos que vemos na tela são de uma potência e complexidade cênica que transcendem a simples realização para a câmera. Destaco ainda a ótima preparação e condução dos atores em cena e a trilha sonora concebida pelo DJ Dolores, executada pelo próprio elenco em alguns momentos.

Tatuagem é, desde o seu argumento, um filme propenso à polêmica. Infelizmente vivemos em uma sociedade ainda extremamente patriarcal e regida por princípios militares de conduta. O homossexualismo, apesar de toda sua afirmação em nosso cotidiano, parece um tabu cada vez mais intransponível. Juntar um militar e um artista em cenas de sexo sem maiores pudores, mas com muita delicadeza e, principalmente, com muita beleza, soa quase como um grito de um herege em tempos de inquisição. Espectadores ainda suam frio e engolem seco ao verem o encontro de peles e pelos de dois homens. Teme-se mais a beleza daquilo que pode nos encantar, do que a feiura daquilo que nos causa repulsa. Felizmente ainda temos a arte e os artistas para nos desvelarem a apoteose dos horizontes possíveis. 

Première Brasil - Festival do Rio 2013

Tatuagem (idem)

Brasil, 2013. 110 min.

Direção: Hilton Lacerda.

Com: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado.