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Augustine


Por: Zeca Seabra
02/07/2013


Augustine (a atriz/cantora Soko) é uma jovem de 19 anos que sofre de uma doença dignosticada como "Histeria Ovariana", que lhe causa estranhos espasmos e fortes convulsões com graves reações neurológicas. Ela acaba virando objeto de um estudo público em sessões pioneiras comandadas pelo renomado neurologista Jean-Martin Charcot (Vincent Lindon) onde as crises eram reproduzidas através de hipnose. Internada no Hospital Salpêtrière (que mais parece uma prisão), a paciente era monitorada pela equipe do Dr. Charcot que fotografava seus ataques afim de exibir, para uma classe de estudantes, os vários estágios da histeria.

A diretora/roteirista francesa Alice Winocour (em seu primeiro longa metragem) faz um interessante painel sobre os tratamentos e as limitações da medicina antiga no final do século 19 quando a Ciência ainda dava seus primeiros passos em direção à neurologia, além de expor a humilhação e a forte repressão de uma época que desconhecia a sexualidade feminina.
Augustine, perante a sociedade, é uma serviçal invisível e sem vontades. Ninguém a nota, nem a percebe, mas a partir das convulsões ela passa a ocupar um espaço social mesmo sendo um objeto de estudo. A relação com o Dr. Charcot passa por várias etapas até culminar no climax sexual consumado entre uma mulher e um homem.
A narrativa examina estas interpretações de uma maneira angustiante e severa através de uma melancólica fotografia que destaca os personagens em fundos negros ou envolvidos por penumbras (ou quase nenhuma luz). A diretora explora ao máximo este clima de confusão ética e moral com os depoimentos de algumas pacientes repletos de leituras desordenadas, abrindo deste jeito, uma interessante discussão sobre submissão, repressão sexual, rigidez e culpa processados por mulheres que torturavam seus corpos com espartilhos apertados (dificultando a respiração) e que mal sabiam identificar seus desejos. A histeria (que reproduz os espasmos de um gozo erótico) era uma doença nova que desafiava as leias da anatomia humana ao mesmo tempo que crescia nos homens um mix de cobiça, fascinação científica e desejo oportunista. A medida que Augustine toma consciência de seu corpo ela passa a fingir alguns sintomas apenas para satisfazer a expectativa de Charcot desenvolvendo uma influencia subversiva e perturbadora. Augustine (França, 2012) propõe responder algumas questões sobre a evolução da sexualidade feminina com uma interpretação repleta de orgulho masculino. Ou seja: para que uma mulher possa existir de verdade é necessário que um homem possa preenche-la. Parece machista; e é.