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EM BREVE NOS CINEMAS

Vocês Ainda Não Viram Nada!


Por: Zeca Seabra
05/07/2013


Alguns cineastas dispensam apresentações. Alain Resnais é um deles. "Hiroshima Meu Amor" (1959) e "O Ano Passado em Marienbad" (1961), são obras primas que ainda sobrevivem como exemplos de um cinema mais intelectualizado e refinado.


Em Vocês Ainda Não Viram Nada (Vous navez Encore Rien Vu, 2012) o diretor, aos 90 anos de idade, desafia as formas da arte criando um filme teatralmente mágico extraindo de seus atores uma interação diegética. O filme é uma esperta adaptação da tragédia grega "Eurídice" que permite que público navegue por um mundo repleto de interessantes artifícios cênicos.

 

Quinze atores recebem um estranho telefonema. Eles devem comparecer na mansão de um amigo diretor recentemente falecido para a leitura do testamento. Os atores, que usam seus próprios nomes e tem uma forte conexão com a obra de Resnais, são convidados a escolher se a última versão de Eurídice vale a pena ser encenada. Durante a projeção em um telão eles se vêem impelidos a contracenar com o vídeo, criando uma experiência pungente com múltiplas interpretações, truques visuais e alternância de tempo.

 

Resnais manipula os elementos cênicos de maneira magistral (como o pêndulo que balança ininterruptamente representando a inflexibilidade do tempo) e estrutura sua narrativa em cima de três pilares básicos: atuação, texto e imagem. O elenco mergulha emocionalmente de corpo e alma em seus papéis duplos exprimindo poesia de cada palavra. A encenação é constituída por um fantástico arabesco de recursos que passam pelo o teatro tradicional, filme mudo, cinema e vídeo com efeitos digitais. As técnicas são variadas (divisão da tela em 2 e 4 quadros, plano e contra plano, intertítulos, personagens que se dissolvem em cena, etc) mas a lógica é uma só e mantém a dramaticidade do texto intacta. O resultado é uma atônita experiência intelecto-sensorial que nas mãos de um mestre como Resnais torna-se um trabalho criativo e inovador (o que não aconteceria com um diretor menos talentoso).

 

O filme se desdobra em várias camadas promovendo uma profunda reflexão (de caráter quase experimental) sobre a desconstrução da narrativa espacial e ainda por cima, faz uma bela homenagem ao teatro clássico. Se não atender o gosto de alguns espectadores, certamente (como o título profetiza) será aprovado por aqueles com grande apetite intelectual e expectativa filosófica.