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EM BREVE NOS CINEMAS

César Deve Morrer


Por Filippo Pitanga
10/10/2012

Não existem muitos, e não é a tarefa mais fácil de se conciliar, mas alguns irmãos triunfaram co-dirigindo seus filmes em sintonia total, como os Dardenne, os Coen, os Farrelly (por que não?) e, no caso em voga, os irmãos Taviani, Paolo e Vittorio. Após fazerem mais produções para a TV nos últimos anos, estavam eles assistindo à peça "A Tempestade" de Shakespeare num local bastante inusitado, encenado num presídio de segurança máxima, onde os próprios cárceres eram os atores. Daí veio a idéia de um longa acompanhando a função ressociabilizadora desta Companhia de Teatro, e o texto escolhido, claro, "Júlio César", também do eterno Bardo, sobre a tentação da tirania e o homicídio como arma social. - Não poderia ser diferente, e o risco vingou, surpreendendo com o Urso de Ouro em Berlim 2012.

A 1ª cena, colorida no tempo presente, já diz tudo e concernente foi a escolha: independente dos crimes que cometeram, o prisioneiro/ator que interpreta Bruto, após terrível culpa por matar César, recita que deseja morrer, pedindo ajuda de seus correligionários que se negam um a um, até que consegue, por fim, dizendo tirar a própria vida com o dobro da raiva com que tirou a vida do Imperador. - isso já remete diretamente ao caráter de penitência que eles projetam na arte! E as aparências enganam. Num misto de documentário e ficção, retrocede da peça já montada para os bastidores de preparação, desta vez no passado em preto e branco, e com liberdade total de ir e vir dentro do presídio para ensaiar.


Inúmeras cenas são clássicas, como quando 2 prisioneiros, cada qual em sua cela, encena o texto como se estivessem cara a cara, pela mágica da montagem. Outro toque especial são as audições, mostrando cada talento conforme vão revelando quem são, de onde vieram e pelo que foram presos, desde tráfico a homicídio, de poucos anos a perpétua (hilária cena com deles dançando New York New York e depois um ritual Maori). Tudo com fotografia inteligente que realça em P&B cada canto do presídio como se pudessem ter escolhido qualquer cenário, mas aquele faz toda a diferença, lembrando a crueza de Dogville. É o ator de Cássio quem melhor explica: "Tem muitos Césares aqui. Homicídios, traições... Ele está dentro de nós".

Talvez a única coisa que não se encaixe como uma luva, tão perfeita quanto o resto, mas que serve à história apropriadamente, é quando revelam suas próprias lembranças e diferenças pessoais despertadas pela peça, pois aí sim parece "encenado" demais, fake (ao contrário da naturalidade com que interpretam Shakespeare). - parte do mesmo problema que azedou um pouco a fluência das propostas em outro filme que mistura mentira e verdade, "Cópia Fiel". No entanto, mesmo isso não macula uma obra de arte que se se imortaliza por si só, independente de pequenas manchas na armadura dourada. - Para quem é fã, parece a realização de um sonho: como se o elenco de "Família Soprano" interpretasse "Roma" (ambas séries magnânimas da HBO)!

PS: Vale salientar que a produtora do filme Grazia Volpi esteve presente na projeção para um debate, e acrescentou a maravilhosa reabilitação que este serviço presta, além de que a administradora do presídio cooperou muito para esta obra acontecer (principalmente por ser mulher, e mulheres são maravilhosas, rsrsrs, ela brincou). Também que foi o ator Cosimo Rega de Cassio, quem faz isso há mais tempo, preso em perpétua, o 1º a convocar o famoso diretor Fabio Cavalli para a Companhia, e que essa façanha já ocorre há anos, neste e no máximo em 3 outras prisões, mas não com o mesmo resultado desta! E uma curiosidade: o ator de Bruto, Salvatore Striano, não é mais um cárcere, recebeu perdão e soltura, já sendo ator profissional, e voltou especialmente para o filme!!!

MOSTRA Panorama do Cinema Mundial - Festival do Cinema 2012

César deve Morrer (Cesare Deve Morire)
Itália, 2011. 76 min.
Direção: Paolo e Vittorio Taviani
Com: Cosimo Rega, Salvatore Striano, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca