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EM BREVE NOS CINEMAS

Histórias cruzadas


Por Zeca Seabra
27/01/2012


O cinema sempre flertou com a possibilidade de resgatar através de importantes passagens históricas, alguns temas que ainda são considerados dolorosos pela sociedade atual. O Holocausto, por exemplo, mesmo após 70 anos, continua provocando reações de indignação através de filmes que, de tempos em tempos, surgem para lembrar dos horrores dos campos de concentração.


A segregação racial que a América do Norte enfrentou durante os anos 50/60 (e toda a turbulência gerada pelo racismo exacerbado, assim como o aparecimento da organização racista Ku Klux Khan) também é outro tema que produz uma espécie de incômodo numa sociedade que atualmente tenta viver em paz com suas antigas chagas raciais (cujo maior exemplo foi eleger um presidente afro descendente).

Vidas Cruzadas (The Help, 2011) é baseado em um comentado best seller intitulado A Resposta de Katryn Stockett e conta, através de depoimentos, o relacionamento entre patroas e empregadas afro-americanas, nos anos 60 quando a igualdade racial ainda era considerada um tabu em todo o país.


Na sinopse: Skeeter (Emma Stone - cujo maior sucesso foi Zumbilândia de 2009) é uma garota loira e branca da sociedade sulista que volta da universidade determinada a se tornar escritora, mas faz a vida de uma pequena cidade do Mississipi virar de cabeça para baixo quando resolve entrevistar as mulheres negras que passaram a vida toda cuidando de proeminentes famílias sulistas.


Apoiado no forte contexto que o livro apresenta, o diretor iniciante e também ator Tate Taylor (que é branco) preferiu não arriscar absolutamente nada e faz um discurso politicamente bem comportado de uma situação bastante complexa evitando deste jeito uma reflexão maior sobre os direitos civis. O filme segue, então, a clássica cartilha dos dramalhões raciais que o cinema já explorou com exaustão e transforma-se em uma novela piegas e dramática. A pretensão de fazer algo mais contundente vai por água abaixo e não se vê nada de novo durante os longos 146 minutos de projeção além de personagens unidimensionais em situações maniqueístas retratando as patroas brancas como seres arrogantes e as empregadas negras como heroínas e/ou vítimas resignadas.

A narrativa adota a habitual postura dos filmes do gênero (drama de comunidade) arriscando aqui e ali algumas relações entre o que é fictício e o que é real, mas infelizmente deposita todas as suas fichas em um ponto de vista extremamente moralista e fingido. Portanto podem aguardar sequências lacrimosas com personagens chorando pelos cantos dos olhos, recitando frases de efeito embalada por uma trilha melosa (assinada pelo competente Thomas Newman) e embrulhada por uma fotografia dourada e uma caprichada edição de arte.

O elenco é talvez o grande responsável pelo êxito do filme. Viola Davis (Aibileen, a empregada da melhor amiga de Skeeter) e Octavia Spencer respondem pelos belos momentos dramáticos além do time excepcional de atrizes coadjuvantes (Sissy Spacek, Mary Steenburgen e Cicely Tyson). 

É natural que filmes deste porte ainda façam algum "efeito" alcançando enormes bilheterias e atraindo um grande público; mas não se deixem enganar. Vidas Cruzadas é apenas uma obra produzida como um evidente pedido de desculpas de uma sociedade conservadora implorando pelo perdão dos erros do passado.