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EM BREVE NOS CINEMAS

Quero ser Solteira (Websérie) - Entrevista com Claudia Sardinha


Por Filippo Pitanga
17/06/2011

A internet dominou o mundo, isso é fato. A verdadeira pergunta é o que mais ela tem a oferecer. Com as principais características de interconectividade, facilidade de acesso a múltiplas informações simultâneas e interatividade, mitos são erguidos e derrubados com menos de quinze minutos de fama. Daí nasceram formatos como Google, Youtube, Facebook e etc..., mas ainda há muito para se inovar.

Um dos últimos conceitos gerados no exterior e que só agora vem a ser mais aproveitado no Brasil é o das webséries, evitando a alta burocracia televisiva que pode homogeneizar ou até destruir com iniciativas novas; tudo dentro do âmbito da regra "faça você mesmo". Pois foi assim que uma atriz, Claudia Sardinha, já com peças no currículo (como "Vermelho Valentino" e "O Jardim das Cerejeiras") e algumas participações em filmes, pôde desenvolver como projeto de finalização da faculdade de Cinema, na PUC-Rio, o conceito inicial do que evoluiria para este programa na internet. Ela acumulou os cargos de roteirista/diretora/atriz e juntou uma equipe crescente, engajada em fazer a pequena semente esticar galhos para todas as possibilidades típicas deste meio: é um veículo que pode estar em todo lugar a qualquer hora, seja no computador, iPad ou celulares; no metrô, no intervalo do trabalho ou em filas intermináveis. - Tudo num pacote com cerca de apenas 10 minutos por episódio novo, liberados a cada domingo no site http://www.querosersolteira.com/

E, numa época que já vem redescobrindo o humor centrado em protagonistas femininas na TV, como "Mulher de Fases" da HBO ou "Lara com Z" da rede Globo, esta empreitada na web já ressalta um diferencial como mote: a inversão das polaridades de força entre o homem e a mulher. "E se fossem elas que só quisessem curtição e relações casuais, ao invés de casar e ter filhos?". Pois a confusão começa justamente por este ponto, onde sua personagem, Nina, acaba por se tornar a mulher ideal e tem de fugir, num bom ritmo cômico, dos pretendentes caídos de amores - com potencial para evoluir a partir de maior identificação, após a costumeira apresentação de personagens (junto a convidados especiais mais conhecidos do grande público, como Rafael Cardoso de "Ti-ti-ti" e Johnny Massaro de "Divã").

Conseguindo já unir um pouco da dinamicidade intimista de "Friends", e resgatando até certo ar sardônico de "Seinfeld" (onde os personagens quase sempre acabavam mal ou provocando algum incidente), é claro que não podia fugir de alguns clichês, até para criar identificação imediata com o vasto leque de público fugaz da rede. A promessa é que já começa a mostrar lampejos de quebrar com estes mesmos estereótipos globais, como da mulher fútil e consumista ou do melhor amigo/confidente homossexual, pois faz um bom trabalho de contextualização comportamental bem brasileira e atual, através de diferentes polaridades com as quais esses arquétipos já andam sendo enriquecidos na própria vida real.

Ou seja, mesmo ainda engatinhando, a única ressalva necessária de se apontar é a falta da exploração de todo o seu claro potencial - não pela falta de esforço no mérito de compensar todas as dificuldades inerentes à autonomia do negócio - porém mais como uma crítica ao "sistema" como um todo, que ainda hesita em apostar nestas novas formas midiáticas e dar verdadeiros subsídios para vôos ainda mais altos.

Entrevista com Claudia Sardinha

AV: Quais foram as vantagens que você encontrou ao criar sua série exclusivamente para a web que não encontraria em outras mídias?
Claudia Sardinha: A web foi escolhida como veículo para a série por causa da dificuldade de distribuição de conteúdo cinematográfico. Ela surgiu como uma alternativa democrática para a exibição de um produto. A internet tem a vantagem da portabilidade (pode ser vista em laptops, telefones) da flexibilidade de horário (o próprio espectador escolhe quando quer assistir) e a liberdade na abordagem de temas. Além disso, estamos muito próximos do nosso espectador que comenta os vídeos instantaneamente, nos dando feedbacks e nos ajudando a melhorar. Fora isso, a vantagem da internet, para um projeto independente e sem orçamento, como é o nosso caso, é um meio "barato" e acessível.

E quais as desvantagens/desafios?
Claudia Sardinha: O desafio é conseguir ser notado! Isso porque a internet é um "mundo"! É muito grande, fragmentada e dispersa! Como não temos orçamento pra divulgação, dependemos do boca-a-boca dos nossos espectadores! Que já tem nos ajudado muito! Além disso, infelizmente, a internet ainda não está disponível para todos os públicos. Apesar de sabermos que muitas pessoas que não têm computador em casa conseguem navegar em lan houses ou no trabalho, o acesso à internet ainda é restrito.

Mesmo invertendo a polaridade de forças entre o homem e a mulher, engessada por tantas eras, você acha que os efeitos psicológicos sobre tal escolha de vida mais liberal para o ponto de vista feminino seriam os mesmos que os da ótica masculina?
Claudia Sardinha: Na teoria as meninas já conquistaram muito espaço, mas na prática, um comportamento tido como tipicamente masculino ainda é considerado estranho quando é praticado por uma mulher. Hoje, as mulheres conquistaram espaços que antes eram impensáveis. Se em 1940, as "mães de família" cruzavam a rua para desviar de uma "desquitada", hoje a população elegeu uma mulher divorciada e solteira como presidente do Brasil. Antes uma mulher que até os 30 anos não era casada "tinha ficado pra titia", hoje as mulheres casam quando encontram um amor, e não por obrigação ou pressão social.

E se sua personagem acabasse se apaixonando de fato incidentalmente?
Claudia Sardinha: A Nina vai se apaixonar! Isso vai dar um "nó" na cabeça dela! Porém você só vai saber exatamente como ela vai reagir se assistir a série!

Após as peças de teatro em que atuou recentemente, experiência totalmente ao vivo, qual foi a diferença no preparo para esta personagem, muito mais descontraída e cômica? 
Claudia Sardinha: A Nina é uma personagem divertidíssima! Foi ela que me ensinou a andar de salto! Eu e o Felipe Cabral, ator que faz o Leozinho, estávamos em cartaz com uma peça (Vermelho Valentino) durante as filmagens. Isso foi muito interessante pois a peça era um drama, em cartaz no Teatro Maria Clara Machado (Planetário) e nossos personagens eram rivais! Então durante a semana a gente se odiava em cena e no fim de semana filmávamos como melhores amigos! Outra coisa experiência divertida é atuar em um texto escrito por você! Sempre entra a questão, onde sou eu atriz, colocando "cacos" (improvisos e piadas) que não estão no texto e onde sou eu, autora, aproveitando que sou atriz pra fazer mudanças de última hora!? Mas principalmente a diferença entre o teatro e o cinema é a questão da cronologia! No teatro você vive uma história com início, meio e fim. Na série a última cena que filmamos foi a primeira cena do primeiro episódio! Tem que estar "ligado" pra não se perder, pra conhecer o ciclo de sentimentos do personagem!

O que você espera para o futuro da série, tanto em termos de liberdade midiática quanto em relação ao conteúdo para uma possível nova temporada?
Claudia Sardinha: A história da Nina ainda dá muito "pano pra manga". Pensamos muito em ter uma segunda temporada, mas isso vai depender do nosso público! Também seria um sonho poder fazer uma continuação em um sistema mais profissional, no qual pudéssemos remunerar a equipe e o elenco!

QUERO SER SOLTEIRA - WEBSÉRIE
www.querosersolteira.com
Elenco
Claudia Sardinha (Nina)
Felipe Cabral (Leozinho)
Rafael Cardoso (Tomás)
Johnny Massaro (Cadu)
Ícaro Silva (Dudinha)
Rafael Queiroga (Guto)