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EM BREVE NOS CINEMAS

Aquelas Mulheres


Por Rodrigo Fonseca
16/01/2010

Ocupado neste momento com a finalização de "Death at a funeral", refilmagem de "Morte no funeral", de Frank Oz, Neil LaBute, de 46 anos, tornou-se o dramaturgo americano mais assediado pelos diretores teatrais brasileiros. Dono de uma obra cinematográfica costurada pelo atropelo, trafegando da misoginia de "Na companhia dos homens" (1997) ao racismo às avessas de "O vizinho" (1998), Labute é uma referência mais vigorosa nas artes cênicas do que na indústria do audiovisual. No fim da década de 1990, quando filmes como "Seus amigos, seus vizinhos" (1998) e "A enfermeira Betty" (2000) chegaram às telas, LaBute passou a ser encarado como uma vertente abrasiva da geração indie que despontavam na cena off-Hollywood. Ele e Todd Solondz eram os mais associados a desconforto. Mas a carreira de ambos na direção correu por trilhos mais tortuosos do que a crítica que os incensava poderia julgar. Nos palcos, contudo, ele manteve seu prestígio crescente, tendo sua dramaturgia comparada à de David Mamet. De todos os seus espetáculos em cartaz, poucos têm o vigor de "Aquelas mulheres" ("Some girl(s)"), em cartaz no Teatro Fashion Mall, sob a direção de Flávio Tambellini.

Produtor de "Carandiru", "Os desafinados" e "A ostra e o vento", Tambellini dirigiu o obrigatório longa-metragem "Passageiro - Segredos de adulto", em 2006. Sua estreia na direção teatral foi vitaminada pela feliz escolha de Pedro Brício, também encenador e dramaturgo. Brício dilui o componente patético que prevalece soberano no texto original de LaBute. A montagem mais conhecida nos EUA foi estrelada por Eric McCormack, do seriado "Will & Grace", em 2006. A trama se concentra na história de um jovem professor que se firma como escritor ao publicar um conto na revista "New Yorker", no qual revisita seus próprios dilemas afetivos. Seu êxito literário coincide com um noivado com uma moça de 23 aninhos de quem o espectador apenas ouve falar. Dos débitos cardíacos do protagonista o público conhece apenas outros... quer dizer outras... quatro. Em diferentes quartos de hotel de localidades variadas dos EUA, o autor, Guy, tem encontros com quatro ex-namoradas com quem teve um término de romance espinhoso. Como decidiu se casar, ele precisa estar em paz com suas memórias de amor para poder ira adiante em seus planos matrimoniais. Mas o projeto de passar a limpo seus cataclismas morais esbarra na percepção de suas fraquezas contínuas e de sua descrença na possibilidade de domar seus medos. 

Esse perfil ganha tônus na interpretação de leves tiques irônicos de Brício, capaz de apresentar o escritor como um cínico que se afunda e se afoga na fortaleza de seu descaso pelo próximo. O time feminino convocado por Tambellini reúne Larissa Maciel, Paula Braun, Lorena da Silva e uma luminosa Luiza Mariani. Larissa é a que fica mais próxima do retrato feminino padronizado por LaBute: sua personagem é quase monocórdia e a atriz não vai além do perfil demarcado na dramaturgia, embora seja a que melhor deixe evidente a insegurança dos que enfrentam amores defuntos. As demais intérpretes elevam a temperatura do vulcão hormonal que LaBute, no texto, tenta a todo custo conter. Tambellini, com inteligência, deixa as erupções explodirem na intensidade radical do descontrole, sobretudo quando Paula Braun pisa em cena, fazendo a mais descolada das paixões pretéritas do anti-herói labutiano. O diretor só carece de uma revisão em sua trilha sonora, injetando maior dinamismo a um ambiente onde o risco da mágoa irreconciliável está sempre à espreita.

SERVIÇO
Aquelas Mulheres, de Neil LaBute
Teatro Fashion Mall (Sala 1) - Fashion Mall , Piso 2
Estrada da Gávea, 899 - São Conrado.
Tel 3322.2495
Quinta a Sábado, às 21h30m  Domingo às 20h
Quinta e Sexta R$ 60,00 Sábado e Domingo R$ 70,00
Não recomendável para menores de 16 anos